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FRIO NA ESPINHA
Texto inglês investiga a dor e os horrores da pedofilia, com interpretações marcantes e encenação rigorosa
Não há como permanecer frio diante da experiência que é assistir a Anatomia Frozen. O espetáculo equivale a um mergulho profundo nas águas mais gélidas da alma humana, onde se cristalizam a vingança, a crueldade e a razão. Uma psiquiatra, um serial killer e a mãe de uma menina estuprada e morta se encontram para trocar discursos secos e diálogos cortantes. Em comum, vidas em que não há mais lugar para a inocência ou o perdão.
Em Anatomia Frozen, o texto da inglesa Bryony Lavery corria o risco de se perder em um lânguido drama burguês. A tradução de Rachel Ripani se mostrou atenta a isso. E a encenação cerebral de Márcio Aurélio não fez concessões ao retratar o iceberg que emerge dos personagens, equilibrando a frieza e a compaixão que cada um deles desperta e merece. As marcações mínimas, a iluminação pálida, o cenário quase inexistente, o figurino insólito e a trilha sonora sibilante se condensam em um balé áspero, mas sutil, que fustiga e congela o espectador. É um teatro para poucos, em que as risadas nervosas de uns se confundem com a respiração suspensa de outros, num estranhamento que causa um incômodo proposital, medido e doloroso.
Essa impossibilidade de redenção só prevalece pela entrega contida, técnica e eficiente dos atores. É a mesma dupla do consagrado Agreste (ainda em cartaz), também dirigida por Marcio Aurélio – e talvez não por acaso uma peça que se encerra em chamas.
Joca Andreazza constrói com maturidade um psicopata sem nenhum glamour, valorizando ao extremo o que lhe restaria de humano. Já Paulo Marcello atinge um nível de interpretação raro, preciso, com momentos do mais impoluto arrebatamento. Inesquecível.
Anatomia Frozen é o que se costuma chamar de uma pequena obra-prima. Mais uma na carreira de Márcio Aurélio, um diretor apolíneo, perfeccionista e que sempre optou por um teatro de experimento, corajoso e, portanto, sujeito a erros. Nessa sua última obra, se sobressaem os acertos, numa generosa demonstração de talento.
A peça fica em cartaz até 28 de agosto, às quintas e sextas, no Teatro Imprensa (São Paulo).
Integra o surpreendente Projeto Vitrine Cultural, idealizado por Cíntia Abravanel
e que já nos ofereceu Comunicação a uma Academia, de Franz Kafka,
com a vigorosa interpretação, impressionante, de Juliana Galdino.
ESTE TEXTO FOI PUBLICADO, COM CORTES, NA EDIÇÃO DESTA SEMANA DA REVISTA CARTA CAPITAL.
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Escrito por marcântonio às 13h20

























